Altair Guidi (*)
Nos primórdios do povoamento da região Sul de Santa, a falta de vias de transporte era o maior obstáculo para o desenvolvimento local. Em 1881, Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, destacava: “Na verdade, de que servem as riquezas do Araranguá se os seus cereais não podem ser transportados sem despesas enormes e obstáculos inúmeros, não dando nem para o trabalho do produtor e nem para o frete da mercadoria? Oxalá que um dia Laguna estivesse ligada ao Araranguá pela junção de um canal nas suas três lagoas”.
Essa ligação de Laguna ao Araranguá “pela junção de um canal nas suas três lagoas”, é objeto de acurada descrição feita por Maurício Selau no livro A ocupação do território Xokleng pelos imigrantes italianos no Sul Catarinense (1875-1925) Resistência e Extermínio, (Bernúncia Editora). A idéia de construir-se um canal ligando Laguna a Araranguá, integrava um projeto maior: a ligação de Laguna à Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, através de rios e lagoas. Em 1887, esse projeto recebeu o nome de “Canal de Navegação Príncipe Dom Afonso”.
Conforme descreve o citado Autor, em Santa Catarina, o projeto previa que o canal deveria partir da Lagoa de Laguna e, através dos rios Tubarão ou Madre, alcançar o Rio Urussanga. Deste rio, demandaria até o afluente Cocal, de onde seria ligado, através de um canal com extensão de 6.500 metros, ao Rio dos Porcos que tem sua foz no Rio Araranguá.
A construção do canal, através do regime de concessão, foi objeto de várias tentativas, todas frustradas pelo não cumprimento dos prazos determinados para o inicio das obras. A primeira, ocorreu em 1870; a segunda, em 1873; a terceira, em 1887 e, a última, em 1907, também não prosperou. Passado mais de um século, fica evidente que o cumprimento de prazos para a execução de obras públicas no Sul de Santa Catarina não é a maior preocupação do Poder Público. Basta ver o que está ocorrendo com a duplicação da BR-101/Sul.
A idéia da construção do canal Laguna – Araranguá, mesmo que aparentemente absurda para os dias atuais, precisa ser observada como mais um exercício de criatividade dos pioneiros de então. Longe de tudo e de todos mas muito perto da oportunidade de prosperar, para aqueles desbravadores bastava o que a natureza lhes oferecia: rios e lagoas que poderiam ser interligados por canais e, através deles, fazer circular as riquezas que a mãe-terra então lhes proporcionava. Em pleno século vinte e um, há melhor exemplo de desenvolvimento autosustentado?
(*) Deputado Estadual; ex-prefeito de Criciúma e ex-secretário do planejamento.
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